A duplicata física não precisa ser proibida por lei para se tornar ultrapassada. Com a evolução do mercado financeiro e das tecnologias de registro, ela tende a perder espaço diante das possibilidades oferecidas pelo modelo escritural.
Amanda Penteado, GPM de Duplicata Escritural da Shipay, explica como essa transformação impacta a gestão de recebíveis, quais são as diferenças entre os modelos e o que empresas e sistemas ERP precisam fazer para acompanhar essa mudança.
Rasuras, extravios, fraudes e dupla negociação de créditos estão entre os problemas históricos que a duplicata escritural busca enfrentar. Com o título mantido digitalmente em um ambiente autorizado, o mercado passa a contar com mais recursos para acompanhar informações, movimentações e titularidade.
Essa mudança também abre novas possibilidades para operações de crédito, antecipação de recebíveis e gestão financeira. A seguir, Amanda responde às principais dúvidas sobre o tema.
1. O que é a duplicata escritural?
Amanda: A duplicata escritural é um título de crédito eletrônico originado de uma venda de mercadorias ou de uma prestação de serviços a prazo. Ela representa o direito de receber um valor futuro e tem suas informações mantidas em um sistema de escrituração autorizado.
A principal mudança está na forma como esse título é constituído, acompanhado e movimentado. Em vez de depender de um documento físico, o mercado passa a contar com registros eletrônicos que permitem acompanhar os eventos relacionados à duplicata.
Isso favorece a rastreabilidade, a transparência e a segurança das operações, além de criar uma infraestrutura mais adequada para a negociação de recebíveis.
É importante lembrar que a duplicata escritural não é um meio de pagamento, como o Pix ou o boleto. Ela representa o crédito decorrente de uma operação comercial, que poderá ser pago conforme as condições estabelecidas.
2. Qual é a diferença entre a duplicata física tradicional e a duplicata escritural?
Amanda: A principal diferença está na maneira como o título é mantido e controlado.
No modelo tradicional em papel, a gestão pode depender de documentos físicos, conferências manuais e controles descentralizados. Isso pode dificultar o acompanhamento das informações e aumentar os riscos de extravio, adulteração e inconsistências.
Na duplicata escritural, as informações são mantidas eletronicamente em um ambiente de escrituração autorizado. Dessa forma, os participantes podem acompanhar os eventos e as movimentações do título com mais rastreabilidade.
Essa transformação também ajuda a enfrentar um problema importante do mercado: a possibilidade de um mesmo crédito ser negociado mais de uma vez sem que os controles adequados identifiquem a situação.
O modelo escritural fortalece os mecanismos de controle, mas não elimina todos os riscos por si só. A segurança também depende do cumprimento das regras, da qualidade das informações e dos processos adotados pelos participantes.
Mais do que substituir o papel por um arquivo digital, estamos falando de uma mudança na infraestrutura de controle dos recebíveis.
3. A duplicata física vai deixar de existir?
Amanda: A tendência é que o modelo escritural ganhe cada vez mais espaço à medida que o mercado avance na digitalização dos recebíveis.
Não é necessário que a duplicata física seja simplesmente proibida para que perca relevância. Quando o mercado passa a contar com uma estrutura digital que oferece mais rastreabilidade, facilita a consulta das informações e permite acompanhar a movimentação dos títulos, o próprio ambiente de negócios favorece essa transição.
Isso não significa que todos os processos mudem de uma hora para outra. A adoção depende da implementação do modelo, da adequação dos participantes e da evolução das operações.
Para empresas e desenvolvedores de sistemas, o mais importante é compreender essa mudança e começar a preparar processos e tecnologias para uma gestão de recebíveis cada vez mais digital.
4. Como a duplicata escritural funciona na prática?
Amanda: O processo começa com uma venda de mercadorias ou uma prestação de serviços a prazo. A operação gera um direito de crédito, que pode dar origem à duplicata escritural.
O título passa a ser mantido eletronicamente, com informações que permitem acompanhar sua situação e os eventos relacionados a ele.
Ao longo desse processo, podem ocorrer manifestações do sacado, negociações do crédito, alterações de titularidade e, finalmente, a liquidação da obrigação.
Cada etapa precisa ser acompanhada de acordo com as regras aplicáveis. Isso é importante porque o titular do crédito pode mudar durante a negociação. Assim, as informações precisam refletir a situação atual do título para que os envolvidos consigam conduzir suas operações corretamente.
É essa capacidade de acompanhar as movimentações que torna a infraestrutura escritural tão relevante para o mercado.
5. Como a duplicata escritural pode ampliar o acesso ao crédito para pequenas e médias empresas?
Amanda: Historicamente, empresas de menor porte enfrentam mais dificuldades para acessar crédito e utilizar seus recebíveis em negociações financeiras. Isso acontece, entre outros fatores, porque o financiador precisa ter confiança de que o pagamento será realizado e de que o crédito oferecido como garantia é legítimo e está devidamente controlado.
Nesse cenário, empresas maiores geralmente contam com mais estrutura, histórico de relacionamento com instituições financeiras e melhores condições para negociar seus recebíveis. Já pequenas e médias empresas podem encontrar mais barreiras para acessar essas mesmas oportunidades.
A duplicata escritural contribui para mudar esse cenário ao oferecer uma infraestrutura digital que favorece a rastreabilidade dos títulos, o acompanhamento da titularidade e a segurança das negociações. Com informações mais estruturadas e confiáveis, os recebíveis podem ser avaliados com maior transparência pelas instituições financeiras.
Isso abre caminho para democratizar o acesso ao crédito, permitindo que pequenas e médias empresas também tenham melhores condições de utilizar os valores que têm a receber em operações de financiamento e antecipação de recebíveis.
Na prática, uma empresa de menor porte que vende a prazo pode ter novas possibilidades para transformar seus recebíveis em recursos para capital de giro, pagamento de fornecedores ou investimentos na operação, sem depender exclusivamente das alternativas de financiamento tradicionais.
É importante destacar que a duplicata escritural não garante a aprovação de crédito nem condições iguais para todas as empresas. A concessão continua dependendo da análise de risco e dos critérios de cada financiador. Seu potencial está em contribuir para um mercado mais transparente, competitivo e acessível, no qual o porte da empresa não seja a única barreira para negociar seus recebíveis.
6. Quais são os principais desafios para os sistemas ERP?
Amanda: Os ERPs ocupam uma posição estratégica porque concentram informações essenciais para a gestão financeira das empresas, como vendas, documentos fiscais e contas a receber.
Com a duplicata escritural, esses sistemas precisam estar preparados para se conectar a um ecossistema financeiro mais integrado, consultar informações, acompanhar eventos e incorporar atualizações à rotina dos clientes.
O desafio é fazer isso sem aumentar desnecessariamente a complexidade do software.
Se cada ERP precisar desenvolver uma integração independente com cada escrituradora, será necessário investir em diferentes conexões, testes, atualizações e processos de manutenção.
Por isso, é importante avaliar arquiteturas de integração que permitam centralizar a comunicação, padronizar os fluxos de informação e acompanhar a evolução do mercado com mais eficiência.
A preparação também envolve revisar os módulos de contas a receber e contas a pagar, os processos de conciliação e os controles relacionados à titularidade e à liquidação dos títulos.
7.Por que uma única integração por API pode facilitar a adaptação dos ERPs?
Amanda: Uma API permite que diferentes sistemas troquem informações de maneira estruturada. No contexto da duplicata escritural, ela pode funcionar como uma camada de comunicação entre o ERP e as infraestruturas financeiras, escrituradoras e registradoras integradas.
Em vez de construir e manter várias conexões separadas, o desenvolvedor pode utilizar uma integração centralizada para acessar as funcionalidades disponibilizadas pela solução e as escrituradoras e registradoras homologadas.
Isso reduz o esforço necessário para administrar diferentes conexões e facilita a manutenção técnica.
Também permite que as empresas de software concentrem seus recursos no desenvolvimento do próprio produto, enquanto a camada de integração cuida da comunicação com as infraestruturas contempladas pela solução.
Naturalmente, a abrangência das funcionalidades depende dos serviços efetivamente disponibilizados e das integrações implementadas.
8. Qual é o papel da Shipay nesse ecossistema?
Amanda: A Shipay atua como uma ponte tecnológica entre os sistemas ERP e o ecossistema financeiro, simplificando a integração com diferentes escrituradoras.
Por meio de uma única API, a proposta é centralizar a comunicação e reduzir a necessidade de cada desenvolvedor construir conexões independentes para acessar as infraestruturas integradas.
Isso ajuda a simplificar o desenvolvimento, a manutenção e a evolução das funcionalidades relacionadas à duplicata escritural.
O objetivo é permitir que os ERPs acompanhem a evolução do mercado sem precisar assumir, individualmente, toda a complexidade técnica das integrações.
9. O que as empresas devem fazer para se preparar?
Amanda: O primeiro passo é entender como a duplicata escritural se relaciona com os processos financeiros já existentes.
As empresas precisam avaliar como registram as vendas a prazo, controlam os recebíveis, acompanham os vencimentos e organizam as informações necessárias para negociar suas duplicatas.
Para os desenvolvedores de ERP, é importante mapear os impactos nos módulos financeiros, identificar as necessidades de integração e acompanhar a evolução das normas e dos padrões técnicos.
Também vale avaliar soluções que simplifiquem a comunicação com o ecossistema, evitando que a adaptação dependa de múltiplos projetos independentes.
A preparação antecipada ajuda a reduzir retrabalho e permite transformar uma mudança regulatória e tecnológica em uma oportunidade de evolução do produto.
10. O que esperar do futuro da duplicata escritural?
Amanda: A duplicata escritural faz parte de uma transformação mais ampla na maneira como os recebíveis são registrados, acompanhados e negociados no Brasil.
À medida que essa infraestrutura avança, a tendência é que as informações financeiras se tornem mais estruturadas e conectadas, criando novas possibilidades para empresas, instituições financeiras e desenvolvedores de tecnologia.
Para as pequenas e médias empresas, isso pode contribuir para ampliar as alternativas de financiamento. Para os ERPs, representa a necessidade de evoluir junto com o mercado e oferecer recursos compatíveis com uma gestão financeira cada vez mais integrada.
A tecnologia tem um papel fundamental nesse processo, principalmente quando consegue simplificar a complexidade para quem precisa utilizar essas novas possibilidades no dia a dia.
A duplicata escritural exige uma nova visão sobre os recebíveis
A transição para o modelo escritural vai além da digitalização de um título. Ela representa uma mudança na maneira como o mercado controla, acompanha e negocia direitos de crédito.
Mais rastreabilidade, transparência e integração podem contribuir para operações mais estruturadas e novas oportunidades de financiamento. Para as pequenas e médias empresas, essa transformação também pode ajudar a reduzir barreiras históricas de acesso ao crédito, ampliando as possibilidades de utilizar seus recebíveis para financiar a operação e impulsionar o crescimento.
Para aproveitar esse potencial, empresas e desenvolvedores precisam preparar seus processos e sistemas.
É nesse cenário que a Shipay atua, conectando ERPs ao ecossistema da duplicata escritural por meio de uma única API e simplificando a complexidade técnica das integrações.
Quer entender como preparar seu ERP para essa transformação?
